A presença feminina na marcenaria ainda é minoria, mas vem ganhando força e visibilidade. Durante a palestra “Empreendedorismo Feminino”, realizada no Espaço Maker da ForMóbile 2026, empreendedoras compartilharam suas experiências, desafios e estratégias para ocupar um mercado historicamente masculino.  

Letícia Saba, da StopaLab e co-fundadora do Empreenda Marcenaria, Camila Bianchi, fundadora e diretora criativa da Maria Joaquina Marcenaria, além de Julia Higashi, Carol Weg e Carol Tasiro, da Fusão Lignina, conduziram um debate franco sobre machismo estrutural, aprendizado técnico e a força das redes de apoio femininas. 

O desafio de empreender em um universo masculino 

Camila Bianchi, que está há 19 anos no setor e comanda uma marcenaria, abordou a realidade do empreendedorismo feminino. “É uma luta diária contra o machismo estrutural. Seja dentro da fábrica, porque os meus funcionários, no geral, me respeitam, mas deixam de respeitar a colega que está do lado, por ser mulher e por estarem em cargos de liderança”, afirmou a empresária, que hoje lidera uma equipe de 30 pessoas. 

A fundadora da Maria Joaquina destacou que sempre fez questão de colocar mulheres em posições de liderança. “Eu acho que os homens já têm o espaço deles bem pavimentado. Então, dentro do meu negócio, eu procuro colocar mulheres em posição de liderança, e essas mulheres sofrem”, revelou Camila, reconhecendo que, de certa forma, passou o desafio do enfrentamento ao machismo para suas funcionárias. 

Julia Higashi, da Fusão Lignina, complementou a discussão ressaltando a importância de criar espaços de diálogo que não sejam percebidos como ataques. “Quando a gente vai falar de empreendedorismo feminino, a gente sempre fala que poderia ter mais homens também, para escutar, para ter uma consciência. Geralmente, parece que eles se sentem atacados e atacam de volta. E não é a nossa intenção”, explicou Julia, enfatizando que o objetivo é ser aceita e respeitada como qualquer ser humano. 

Situações cotidianas de preconceito 

As palestrantes compartilharam situações cotidianas que evidenciam o preconceito ainda presente no setor. Camila Bianchi compartilhou experiências ao longo de sua trajetória. “Eu já passei por tudo, desde ser chamada de ‘filha do seu Léo’, ‘aquela menina’, ou ‘fulana chama seu pai no telefone’, de fornecedores famosos, inclusive”, contou a empresária, que fundou a Maria Joaquina após se formar em arquitetura, sendo posteriormente acompanhada pelo pai, que é autodidata na marcenaria. 

Carol Weg, também da Fusão Lignina, relatou situações em que tentou explicar usos criativos de ferragens e foi tratada com descrédito. “Você tenta explicar uma ideia para usar uma ferragem de maneira diferente, o vendedor é quadrado, não entende o que você quer e ainda te trata com uma questão: ‘você não sabe como funciona, o que você está pedindo’”, descreveu.

A força das redes de apoio femininas 

Um dos pontos centrais da palestra foi a importância de criar redes de apoio entre mulheres marceneiras. Letícia Saba explicou como surgiu a Confraria das Lumberjills, iniciativa para reunir marceneiras. “É muito diferente você debater num ambiente entre mulheres e debater num ambiente com homens, dentro da marcenaria”, afirmou. 

Carol Weg destacou a proposta da Fusão Lignina de fortalecer a presença feminina no setor. “A proposta da Fusão é a gente se fazer mais presente, se mostrar, se encontrar mais, se fortalecer e se enxergar, ter pessoas quem a gente consegue admirar na nossa rotina, no dia a dia”, explicou, ressaltando que ver outras mulheres bem-sucedidas no cotidiano inspira e mostra que é possível pertencer a esse espaço. 

Julia Higashi complementou que as vivências femininas podem ser transformadas em diferenciais competitivos. “A gente vive dores que acabam influenciando o nosso olhar empreendedor. Você percebe que o seu público feminino e LGBTQIA+ está aumentando? Então, talvez um empreendedor homem não tenha essa sensibilidade”

Público feminino e LGBTQIA+ como diferencial 

Letícia Saba identificou uma mudança significativa em seu público-alvo. “Eu tenho uma marcenaria de móveis sob medida aqui em São Paulo. O meu público preponderante é de outras mulheres. Porque elas sabem que quem vai na casa delas sou eu, quem vai fazer a medição sou eu”, explicou a empresária, que também atende o público LGBTQIA+, pessoas que se sentem mais seguras com sua presença. 

Camila Bianchi confirmou a mesma tendência. “Hoje eu conquistei um lugar de respaldo técnico muito grande, e a maioria das minhas clientes são mulheres, principalmente nos projetos infantis, afirmou a fundadora da Maria Joaquina. 

Esse fenômeno revela uma mudança importante no mercado moveleiro: a presença feminina, além de ser uma questão de representatividade, é também uma resposta a demandas reais de clientes que buscam profissionais com quem se sintam seguros e compreendidos.

As marceneiras estão, assim, ocupando um nicho de mercado que valoriza não só a qualidade técnica, mas também a empatia, o cuidado e a segurança que a presença feminina proporciona. 

Desigualdade no aprendizado técnico 

Um ponto crucial levantado por Letícia Saba foi a diferença no acesso ao conhecimento técnico entre homens e mulheres desde a infância. “Os homens foram ensinados desde pequenos em coisas que a gente não teve nem acesso. Usar uma furadeira, uma parafusadeira, uma chave de fenda, são coisas que normalmente as mulheres não acessam quando crianças”, observou, destacando que essa diferença coloca homens e mulheres em posições distintas no mercado. 

A empresária ressaltou que isso pode se tornar uma vantagem no processo de aprendizagem das mulheres marceneiras. “No momento em que eu me interessei por marcenaria, o meu processo de aprendizado começou do zero. Eu precisei ler o manual. A experiência do homem pode ser maior por fazer isso há mais tempo, aprendeu com o pai, com o avô, mas as mulheres aprendem da fonte correta, do manual. Como empreendedora, acredito que isso pode ser muito melhor”, concluiu. 

A palestra evidenciou que, apesar dos desafios, as mulheres estão conquistando espaço na marcenaria através de competência técnica, redes de apoio e sensibilidade para identificar nichos de mercado.

A presença dessas empreendedoras entre as atrações da ForMóbile representa não apenas suas trajetórias individuais, mas um movimento coletivo de transformação em um setor tradicionalmente masculino. 

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