Durante muito tempo, o design foi tratado pela indústria moveleira como a etapa final do desenvolvimento de um produto. Hoje, essa lógica já não responde às exigências do mercado.
Em um ambiente marcado pelo avanço das importações, novas exigências ambientais e consumidores mais atentos ao propósito das marcas, o design passa a ocupar um papel estratégico na competitividade das empresas.
Essa foi a principal mensagem de Cândida Cervieri, diretora executiva da Abimóvel, na principal atração da ForMóbile 2026. Inovação, identidade e capacidade produtiva precisam caminhar juntas para ampliar o valor percebido dos móveis brasileiros no mercado nacional e internacional, de acordo com a especialista.
“O design tem que ser compreendido além da estética. Ele gera inovação, melhora processos, fortalece marcas, cria valor percebido e amplia margens. Design não é custo; é investimento”, afirmou.
Competir apenas por preço já não é suficiente
A indústria brasileira vive um momento de transformação. Ao mesmo tempo em que mantém uma posição relevante na produção mundial de móveis, enfrenta um crescimento das importações, especialmente de produtos asiáticos, cenário que aumenta a pressão competitiva sobre os fabricantes nacionais.
Essa nova realidade exige uma mudança de posicionamento, segundo Cândida.
“O consumidor compra propósito, experiência e identidade. Produtos que não incorporam sustentabilidade, inovação, tecnologia e economia circular podem ficar fora do mercado em muito pouco tempo”, alertou.
Nesse contexto, o design torna-se uma ferramenta para reduzir a dependência da competição baseada exclusivamente em preço. Ao agregar diferenciação, fortalece o posicionamento das marcas e amplia o potencial de rentabilidade dos produtos.
O diferencial brasileiro está na identidade
Ao contrário da percepção de que o design de referência está apenas na Europa, a executiva defende que o Brasil reúne atributos difíceis de serem replicados por outros mercados.
Entre eles, estão a diversidade cultural, a biodiversidade de matérias-primas, a criatividade dos profissionais brasileiros, a flexibilidade industrial e a capacidade produtiva distribuída por praticamente todas as regiões do país.
Esses elementos, para Cândida, ajudam a construir uma identidade própria para o mobiliário nacional.
“Quando chegamos ao mercado internacional percebemos o quanto essa diversidade é valorizada. Muitas vezes nós mesmos ainda não reconhecemos esse potencial”, pontuou.
A palestra reuniu exemplos de móveis produzidos com madeiras de reflorestamento, fibras naturais, tramas artesanais, couros e outros materiais brasileiros que alcançaram elevado valor agregado em feiras internacionais como o Salão do Móvel de Milão.
Internacionalização começa pelo desenvolvimento do produto
Exportar não depende apenas da abertura de novos mercados, mas principalmente da construção de produtos capazes de competir globalmente. Segundo a diretora, empresas de diferentes portes já demonstram que é possível transformar design em estratégia de internacionalização.
Foram apresentados casos de fabricantes brasileiros que nasceram como empresas familiares e hoje mantêm lojas ou operações em mercados como Estados Unidos, Portugal, Itália e outros países europeus, tendo o design como principal elemento de diferenciação.
“Quando agregamos valor ao produto, deixamos de competir apenas por preço. É isso que abre portas no mercado internacional.”
Na avaliação da executiva, o design permite posicionar tanto pequenas quanto grandes empresas em segmentos de maior valor agregado, fortalecendo a imagem da indústria brasileira.
Design conectado à indústria
Outro ponto destacado foi a necessidade de aproximar designers e fabricantes desde o desenvolvimento dos produtos.
A Abimóvel, em parceria com a ApexBrasil, mantém o programa Design + Indústria, iniciativa que conecta profissionais de design a empresas moveleiras para desenvolver novas coleções alinhadas ao DNA de cada fabricante.
Durante aproximadamente seis meses, designers trabalham diretamente com as indústrias para criar produtos inovadores, que posteriormente passam por um processo de curadoria e podem integrar exposições internacionais.
“O objetivo não é mudar o modelo de negócio da empresa, mas potencializar sua essência por meio do design”, explicou.
A proposta busca estimular inovação sem perder a identidade das marcas, ao mesmo tempo em que amplia oportunidades comerciais no exterior.
Muito além da vitrine: exposição conectou toda a cadeia do móvel
Quem visitou a exposição da Abimóvel na ForMóbile 2026, encontrou cerca de 40 peças que sintetizaram uma ideia cada vez mais presente na indústria moveleira: o produto final é resultado da integração entre design, tecnologia, materiais e capacidade industrial.
As obras selecionadas passaram por alguns dos principais palcos internacionais do setor, como o Salão do Móvel de Milão, na Itália, e a ICFF, nos EUA. Mais do que uma mostra de mobiliário, a exposição revelou como o design se conecta às diversas etapas da cadeia produtiva — da escolha das matérias-primas ao acabamento, passando por ferragens, componentes, processos industriais e soluções de fabricação.
As peças foram resultado de três iniciativas coordenadas pela Abimóvel em parceria com a ApexBrasil e o Sebrae. O Design + Indústria, voltado à internacionalização das empresas; o PDCIMob, direcionado ao fortalecimento de micro e pequenos fabricantes; e o Prêmio Design da Movelaria Nacional, criado para revelar novos talentos e aproximar criatividade e produção.
Ao reunir fabricantes, designers, fornecedores e compradores em um mesmo ambiente, a exposição demonstrou como a inovação nasce da colaboração entre diferentes elos da cadeia.
Também reforçou que a competitividade não depende apenas do desenho da peça, mas da capacidade de transformar identidade, tecnologia e eficiência produtiva em produtos com maior valor agregado e alcance internacional.
A mostra dialogou diretamente com a proposta da ForMóbile, ao evidenciar que as soluções apresentadas pelos expositores — de máquinas, ferragens, painéis, revestimentos, insumos e softwares — são parte essencial do processo que transforma uma ideia em um produto competitivo no mercado brasileiro e internacional.
Tecnologia e sustentabilidade passam a fazer parte do projeto
Embora o foco da palestra tenha sido o design, Cândida ressaltou que competitividade envolve um conjunto mais amplo de fatores.
Entre eles, estão a digitalização de processos, o uso crescente da inteligência artificial no desenvolvimento de produtos, a incorporação de novos materiais e o atendimento às exigências de sustentabilidade e certificações internacionais.
Para a especialista, esses fatores deixam de ser diferenciais e passam a integrar os requisitos básicos para competir nos mercados mais exigentes. “Sem digitalização, sem inovação e sem sustentabilidade, estaremos fora do mercado”, pontuou.
Um novo posicionamento para a indústria brasileira
A diretora executiva da Abimóvel defendeu que o Brasil reúne condições para ampliar sua presença internacional justamente por oferecer uma combinação pouco comum entre capacidade industrial, criatividade e identidade cultural.
O país já deixou de ser apenas um seguidor de tendências para ocupar espaço como produtor de design autoral reconhecido internacionalmente.
“Quando design, inovação e estratégia caminham juntos, o resultado deixa de ser apenas um produto. Surge uma marca mais forte, uma empresa mais competitiva e um país mais preparado para disputar espaço no mercado global”, concluiu.