A tecnologia na marcenaria foi tema de um painel realizado no Espaço Maker da ForMóbile 2026, que reuniu especialistas para debater os caminhos da modernização no setor.
Rafael Souza, consultor da JR Ferragens, com Ana Boaventura e Bernardo Costa, do Meu Marido Marceneiro, compartilharam experiências sobre terceirização, automação e o uso de inteligência artificial na produção de móveis.
Terceirização como alternativa estratégica
Rafael Souza trouxe uma perspectiva baseada em sua experiência nos Estados Unidos, onde trabalhou por seis anos em marcenarias. “Nos Estados Unidos e em outros países, a marcenaria de MDF, os móveis planejados, são feitos de maneira completamente diferente do nosso processo produtivo. Lá é natural que se terceirize uma parte da produção de grande escala”, explicou o consultor.
Ao retornar ao Brasil, Souza criou um ecossistema de terceirização em Belo Horizonte (MG), modelo que posteriormente o levou a trabalhar na JR Ferragens.
O consultor provocou a plateia com uma pergunta fundamental: “Quanto custa um corte na sua marcenaria?”. Segundo ele, poucos marceneiros sabem responder essa questão essencial para avaliar se vale a pena investir em equipamentos ou terceirizar. “Se a pessoa não sabe quanto custa um corte, como é que ela sabe que ela está precificando o imóvel correto?”, questionou.
Rafael defende que a terceirização é importante principalmente na fase inicial do empreendimento, para descobrir o que precisa ajustar no projeto, o que vende bem, o que é escalável, os custos de produção, tudo isso antes de começar a investir em equipamentos.
É importante que o marceneiro saiba o que precisa e qual seu modelo de negócio.
O caminho da verticalização
Para o Meu Marido Marceneiro, a terceirização foi um desafio, até que resolveram montar a própria fábrica. Bernardo Costa veio da construção civil e transformou seu hobby em profissão. Sem tradição familiar na marcenaria, ele começou trabalhando com madeira de demolição, depois madeira de lei e, quando o estoque acabou, migrou para compensado naval.
Com a parceria de sua esposa, Ana Boaventura, o passatempo transformou-se em negócio quando a internet impulsionou a marca. “Juntos criamos uma marca de móveis multifuncionais e inteligentes, voltados para a otimização de espaços”, explicou Bernardo. A empresa desenvolveu uma linha com mais de 30 SKUs, incluindo mesas que expandem e aparadores transformáveis.
O casal enfrentou o desafio de equilibrar criação artesanal com produção em escala. “Começamos a padronizar com o MDF, porque é repetível e escalável”, explicou Bernardo. A transição não foi simples, envolvendo três tentativas frustradas de terceirização antes da decisão de montar a própria fábrica.
“Nós sempre ficamos com isso na cabeça: ‘não quero ter muito funcionário’, e para poder aumentar a escala sem depender tanto de mão de obra, investimos em tecnologia”, afirmou Bernardo.
O diretor de criação do Meu Marido Marceneiro reconheceu as dificuldades da decisão. “Ser dono de marcenaria não é tarefa fácil, mas a necessidade de manter o controle sobre a qualidade e a inovação justificou o investimento. Quando a gente quis aumentar a qualidade do produto, aumentar a experiência do cliente, melhorar o padrão de embalagem e tudo mais, o parceiro naquele momento não estava muito interessado em fazer investimentos”, explicou.
A empresa hoje opera com CNC para corte de MDF e terceiriza a serralheria, que representa 70% da estrutura de seus produtos.
Bernardo revelou os próximos investimentos do Meu Marido Marceneiro. “O próximo investimento será numa coladeira automática, que eu ainda não tenho. É outro equipamento que vai nos dar otimização de tempo”, anunciou. A empresa também planeja adquirir uma esteira de retorno para reduzir a necessidade de dois operadores para um.
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Inteligência Artificial na produção e venda de móveis
A inteligência artificial emergiu como ferramenta estratégica na marcenaria. Rafael acredita que o primeiro investimento para quem está começando é muito simples: um notebook.
O consultor da JR Ferragens apontou aplicações práticas para a IA no seu trabalho. “Eu jogo um PDF de 50 páginas de um projeto e ela me fala o orçamento, baseada no meu método construtivo, em como eu treinei a ferramenta para calcular. Então acelera muito a resposta no orçamento”.
Outra aplicação mencionada foi o cálculo de peças complexas. “A gente fez recentemente um pé cônico em MDF de 15 milímetros. Eu sou muito bom em matemática, mas não é para tanto”, admitiu Rafael.
A IA resolve cálculos complexos de raios, pisos e medidas variáveis instantaneamente. “Criamos um agente, criamos um prompt, e a IA faz aquele cálculo todo exato. Então transcrevemos para o software da CNC e fazemos a peça”, detalhou.
Para revendas, a IA organiza pedidos de forma eficiente. “Os marceneiros entregam inúmeros pedidos por dia, se a gente joga dentro da IA, ela consegue organizar por material, por exemplo, de uma maneira muito mais fácil do que tem alguém operando o Excel “, exemplificou Rafael.
Para Bernardo, “estar presente na rede social é fundamental para vender. Hoje, vende mais quem se comunica melhor “, afirmou.
Ana destacou o papel da IA na criação de conteúdo. “Use a inteligência artificial a seu favor. Para ter um Instagram ou mesmo um catálogo, a IA vai te ajudar a fazer um texto melhor, uma imagem melhor”, incentivou.
A CEO da empresa revelou que, a partir de uma série de fotos do produto em diferentes formatos e ângulos, usa a IA para criar imagens para o cliente “visualizar o produto em todos os acabamentos que a gente vende, isolado e ambientado”, destacando que a tecnologia elimina custos com estúdios fotográficos, criando cenários e mudando a cor dos móveis, sem que seja preciso fotografar de novo.
A empresa também está implementando IA para atendimento ao cliente. “Nós temos aí uma demanda de mil a duas mil mensagens todos os dias, comentários em redes sociais, mensagens de WhatsApp”, revelou Ana. A solução em andamento é adotar uma IA humanizada, capaz de distinguir diferentes tipos de mensagens.
Os palestrantes também destacaram a importância da educação para a adoção tecnológica e citaram o projeto Empreenda Marcenaria, curso gratuito de gestão que está com vagas abertas para 2027.
O painel evidenciou que não existe um único caminho para a modernização. Enquanto a terceirização oferece flexibilidade e menor risco para começar, a verticalização proporciona controle e capacidade de inovação. A inteligência artificial surge como ferramenta democrática, acessível tanto para grandes quanto pequenas marcenarias.
O essencial, segundo os especialistas, é que marceneiros desenvolvam mentalidade empresarial, dominem seus custos e estejam abertos a novas tecnologias.