A falta de mão de obra, os atrasos nas entregas, o retrabalho constante e a dificuldade para crescer estão entre as principais reclamações das marcenarias brasileiras. Embora muitos empresários enxerguem a solução na aquisição de novas máquinas ou na contratação de mais funcionários, esses investimentos nem sempre atacam a origem dos problemas. 

Foi essa provocação que conduziu a palestra de Fernando Imazu, consultor e especialista em gestão de marcenarias, durante a ForMóbile 2026. Boa parte das empresas dedica tempo e recursos para resolver apenas os sintomas da operação, quando o verdadeiro desafio está nas causas estruturais, segundo Imazu. 

“Tem muito dono de marcenaria que está tentando consertar a consequência e não a causa”, pontuou. 

Para explicar esse raciocínio, o consultor comparou a gestão da empresa a um diagnóstico médico. Assim como um remédio pode aliviar a febre sem tratar a doença, diversas decisões tomadas dentro da marcenaria apenas amenizam problemas temporariamente, sem eliminar a origem. 

Quando a máquina não é a resposta 

Um dos exemplos apresentados foi o impulso frequente de investir em novos equipamentos para aumentar a produção. 

Para Imazu, muitas empresas acreditam que uma nova coladeira, seccionadora ou router resolverá seus gargalos. No entanto, quando não existem processos definidos, planejamento e organização da produção, o investimento apenas transfere o problema para outra etapa da fábrica. 

“Você quer comprar uma máquina, porque quer produzir mais. No entanto, o problema da sua produção talvez não seja a máquina. Seja a organização”, definiu. 

A provocação dialoga diretamente com um momento vivido pelo setor. O avanço tecnológico amplia a capacidade produtiva das marcenarias, mas seus resultados dependem da maturidade da gestão que sustenta esses investimentos. 

Sete sintomas que escondem problemas maiores 

O consultor agrupou os desafios mais comuns das marcenarias em sete grandes categorias: 

  • falta ou dificuldade de gestão da mão de obra
  • liderança pouco estruturada; 
  • problemas financeiros e baixa rentabilidade; 
  • dificuldades comerciais e baixo índice de fechamento; 
  • atrasos na produção; 
  • falhas de qualidade e retrabalho; 
  • crescimento sem estrutura. 

Todos esses sintomas costumam ter causas recorrentes: ausência de processos padronizados, falta de indicadores, baixa capacidade de planejamento, treinamento insuficiente das equipes e centralização das decisões no proprietário. 

“Quem reclama que não tem profissional no mercado, mas não está treinando pessoas, não pode reclamar”, sugeriu. 

Padronização reduz desperdícios 

Entre os temas mais recorrentes da palestra, esteve o retrabalho, apontado como um dos principais responsáveis pela perda de produtividade e margem. 

Imazu defendeu que padronizar processos significa estabelecer critérios claros para produção, montagem, acabamento e conferência das peças, reduzindo a dependência da experiência individual de cada colaborador. 

Isso envolve checklists, procedimentos documentados, treinamento por função e definição objetiva dos padrões de qualidade esperados. 

Quando cada profissional executa uma mesma atividade de forma diferente, a empresa perde eficiência, aumenta o desperdício e compromete a percepção de qualidade do cliente, de acordo com o Imazu. 

“Qualidade não é diferencial. É obrigação. Ela não pode depender do humor, da pressa ou da pessoa que executa.” 

Gestão baseada em indicadores 

Outro ponto enfatizado foi a necessidade de transformar decisões intuitivas em decisões baseadas em dados. 

Para o consultor, ainda é comum encontrar marcenarias que administram produção, vendas e finanças apenas pela experiência do proprietário, sem indicadores capazes de orientar prioridades. 

Entre os indicadores considerados essenciais estão margem de contribuição, produtividade, retrabalho, prazos de entrega, faturamento e fluxo de caixa. 

“O empresário precisa parar de decidir apenas pelo feeling e começar a analisar indicadores”, resumiu. 

Crescer exige estrutura 

Um dos alertas foi direcionado às empresas que aumentam o faturamento sem fortalecer sua estrutura operacional.  

Segundo Imazu, crescer sem processos definidos, lideranças intermediárias e controles gerenciais pode ampliar os problemas existentes em vez de solucioná-los. 

O crescimento sustentável acontece quando a empresa consegue reduzir a dependência do dono, desenvolver líderes, distribuir responsabilidades e estabelecer processos capazes de funcionar independentemente das pessoas. 

Tecnologia continua estratégica 

Embora tenha reforçado diversas vezes a importância das máquinas e da automação para a competitividade da indústria moveleira, Imazu destacou que esses investimentos entregam seu potencial máximo apenas quando fazem parte de uma estratégia mais ampla. 

Antes de ampliar a capacidade produtiva, ele recomenda revisar processos, eliminar desperdícios, organizar a gestão e preparar as equipes. 

“A sua marcenaria não muda quando você trabalha mais. Ela muda quando começa a trabalhar de forma inteligente para atacar as causas e não os sintomas”, concluiu.

Aprofunde-se no tema e confira o Perfil de Marcenarias do Brasil.