Quando o assunto é El Niño, a prevenção dos riscos climáticos precisa, sem desculpas, estar no radar da indústria moveleira, uma vez que ela depende de instalações adequadas e máquinas de precisão. Também, de matérias-primas e estoques preservados, operações efetivas para eventos extremos e medidas importantes para reduzir possíveis perdas e manter a continuidade da produção.
De acordo com Vitor Hassan, head de negócios da Climatempo, os efeitos do El Niño variam conforme a região, logo, ele não impacta o Brasil de maneira uniforme.
Onde está o risco? No excesso de chuvas sem aviso prévio, nas enchentes, nos atrasos logísticos e nos dados aos ativos para os negócios. “Está também no calor persistente, na baixa umidade, no aumento do risco de queimadas e na pressão sobre a produtividade, a saúde ocupacional e na demanda por energia”, explica.
Para o executivo, o ponto central é transformar a previsão climática num planejamento operacional. Ou seja, traçar metas para o planejamento preventivo.
Atenção à infraestrutura industrial
Por sua vez, o Sebrae divulgou que o momento é de atenção, planejamento e decisão. “Os órgãos oficiais de meteorologia indicam probabilidade acima de 90% de o El Niño continuar ativo até, pelo menos, o início de 2027, com chance alta de o fenômeno atingir a categoria de Super El Niño”.
Vale o alerta, mesmo porque, nas fábricas de móveis, as chuvas intensas e os alagamentos podem comprometer as estruturas, as instalações, os equipamentos e os materiais armazenados. Sabemos que as chapas em MDF e MDP, bem como qualquer tipo de madeira, componentes, ferragens e produtos acabamentos precisam de preservação. Com isso, devem estar no planejamento de contingência para não sofrerem qualquer tipo de dano.
E a prevenção começa com a avaliação das condições físicas do chão de fábrica, incluindo as coberturas, calhas, sistemas de drenagem, telhados, paredes, portas, docas e pontos de entrada de água. É essencial, inclusive, identificar possíveis infiltrações, falhas de escoamento e áreas de vulnerabilidade antes dos períodos das chuvas intensas.
Fora isso, vale mapear os equipamentos instalados em áreas sujeitas a alagamentos, bem como proteger adequadamente os sistemas elétricos e avaliar as alternativas disponíveis para o armazenamento dos insumos e dos produtos. E mais, os planos emergenciais devem estabelecer as responsabilidades, os procedimentos para a interrupção segura das atividades e os critérios para a retomada da operação.
Atualização do patrimônio
Além da proteção física, quando o assunto é El Niño, é preciso pensar também na questão estratégica que compreende conhecer os ativos existentes, a localização e o valor. Dessa forma, é possível avaliar a exposição financeira da indústria e revisar a cobertura dos seguros.
Segundo Fernando Mello, CEO da Saraf Controle Patrimonial, é preciso se atentar às diferenças que podem surgir entre a realidade da operação e os registros utilizados pela gestão.
“Uma indústria é um organismo em movimento. Compra máquinas, transfere equipamentos, desativa linhas, amplia unidades e realiza investimentos continuamente. Se o controle patrimonial não acompanha esse ciclo, chega um momento em que a empresa possui uma realidade física, outra contábil e, eventualmente, uma terceira considerada para fins de seguro”, explica Fernando.
O especialista ainda diz que esse tipo de divergência pode permanecer silencioso por anos e aparecer justamente quando ocorre um sinistro, o que pode ser um gargalo considerável.
Para evitar tal cenário, ele sugere que o inventário patrimonial deve acompanhar as mudanças da fábrica, incluindo a aquisição, a transferência e a substituição de equipamentos. Ou seja, a revisão periódica das informações contribui para que a empresa tenha uma visão mais consistente dos bens expostos a riscos e dos valores envolvidos em uma eventual perda.
O calor também deve estar na pauta
O El Niño não apresenta apenas chuvas torrenciais, mas também temperaturas elevadas, as quais podem aumentar a demanda por eletricidade. Isso, principalmente em plantas que utilizam climatização e sistemas de ventilação. A maioria, por sinal.
Na indústria moveleira, por exemplo, o planejamento energético deve considerar as necessidades reais da respectiva operação, além dos equipamentos utilizados e os períodos de maior demanda.
Outro ponto importante é o acompanhamento, tanto do consumo e da manutenção preventiva dos sistemas quanto da identificação de desperdícios. Tais medidas ajudam a orientar as ações em favor da eficiência energética. Uma análise detalhada pode apoiar decisões sobre horários de operação e priorização de investimentos, sem comprometer as condições necessárias à produção e à segurança dos trabalhadores.
Andrea Mello, diretora executiva da Saraf, pontua que o patrimônio precisa ser tratado como parte da estratégia e gestão da indústria moveleira. “Estamos falando de recursos que a empresa investiu para produzir, crescer e gerar resultado. Quando essas informações não chegam de forma confiável à diretoria, a organização passa a tomar decisões estratégicas sobre uma base que pode não representar integralmente a realidade”, afirma.
Prevenção deve fazer parte da rotina
A preparação para os eventos climáticos não deve existir apenas enquanto o El Niño se faz presente ou quando uma previsão indica a chegada de temporais. É preciso acreditar na efetividade das inspeções estruturais, da manutenção dos equipamentos, organização dos estoques, atualização dos registros patrimoniais e nos planos de contingência.
Tudo isso tem de integrar a gestão cotidiana do setor de móveis. Conforme destaca Fernando Mello, “a gestão de risco não pode começar no dia do incêndio, do alagamento ou da auditoria”.
Logo, para a indústria moveleira, antecipar as vulnerabilidades, durante e depois do El Niño, significa gerar menos danos ao patrimônio, maior previsibilidade dos custos e melhores condições para manter a produção diante de situações adversas.
No cenário vigente, que exige maior atenção aos extremos climáticos, proteger as fábricas de móveis significa acreditar na continuidade das operações.
Aproveite e saiba o que a indústria moveleira deve cumprir em ESG.