A marcenaria clássica, geralmente, impressiona pelo resultado. No entanto, seus projetos compreendem complexidades que começam antes mesmo da peça ser colocada no ambiente final. Entre elas estão os alinhamentos milimétricos, a paginação, os diferentes tipos de madeira, os detalhes artesanais e as alterações durante o desenvolvimento do trabalho. 

Segundo Gonçalo Jorge, arquiteto e diretor da Arkitat Marcenaria, são desafios que exigem planejamento, mão de obra especializada e tempo. 

E foi exatamente essa a temática abordada pelo especialista em sua palestra na ForMóbile 2026. Ele falou sobre “Marcenaria clássica em tempos contemporâneos: complexidade e os desafios de execução”. 

No contexto, mostrou como algumas soluções aparentemente simples podem demandar processos sofisticados. Alguns exemplos foram citados, entre os quais, uma residência de grande porte, em São Paulo, que reúne painéis em boiserie, almofadas, iluminação e automação integrada a uma paginação cuidadosamente calculada. 

Gonçalo explicou que qualquer alteração na execução desse tipo de obra exige a revisão de diversos elementos já projetados. “Mas são problemas que acontecem e você aprende no dia a dia como resolvê-los”, afirmou. Ou seja, trabalhos assim exigem pleno acompanhamento e o mais próximo possível da produção. Além também da disposição para lidar com imprevistos.  

A mão de obra especializada é um gargalo? 

De acordo com o palestrante, sim. Para ele, a complexidade dos projetos evidencia esse fato. Logo, a experiência acumulada por marceneiros antigos é fundamental para a execução de trabalhos que exigem precisão e acabamento artesanal. “Manter essa mão de obra hoje em dia é muito difícil”, ressaltou. Tal cenário, a propósito, coloca em pauta a formação de novos profissionais. 

E esse tipo de problema tem motivado Gonçalo a pensar na criação de uma escola ou um instituto de formação para a preparação da mão de obra qualificada para fins contemporâneos. Ele disse ao longo da apresentação que, sem renovação, a capacidade de executar projetos sofisticados pode se tornar cada vez mais limitada. 

Todo projeto exige tempo 

Outro ponto de destaque da palestra foi a relação entre o prazo de entrega e a qualidade do trabalho. Em uma marcenaria artesanal, por exemplo, é fundamental que os projetos sejam executados com tranquilidade e tempo para que o resultado final não seja comprometido. Lembrando que esse tipo de trabalho se destaca pela sofisticação dos detalhes. “Não dá para ser rápido”, alertou Gonçalo. 

Dentro disso, ele destacou as molduras que podem exigir diferentes fresas para a execução de curvas e detalhes. Também, os trabalhos com lâminas de madeira que exigem atenção à sequência da paginação para evitar diferenças visuais. 

Uma escada na residência da cantora Anitta serviu de exemplo na ocasião. O especialista disse que a estrutura existente em alvenaria foi revestida com compensado flexível e posteriormente folheada. Ainda conforme o palestrante, esse trabalho foi realizado enquanto outras equipes atuavam na obra. Ou seja, um enorme desafio, com riscos de danos e dificuldade na logística. 

Entendemos, então, que a atenção aos detalhes pode elevar significativamente o padrão da entrega. No caso citado, a sequência das lâminas precisa ser bem preservada, inclusive, nas partes curvas, mesmo que seja necessário utilizar uma maior quantidade de material. 

Técnica, diálogo e controle da qualidade 

Na palestra foi reforçada também a importância da proximidade entre a marcenaria e a arquitetura. Isto significa que, em projetos complexos, as limitações técnicas devem ser do conhecimento de todos os envolvidos, assim como discutidas previamente as possibilidade da execução do projeto. 

A ideia é evitar problemas e, paralelamente, abrir espaço para soluções mais criativas. Para o parceiro da ForMóbile 2026, o marceneiro deve participar de todo o processo e dialogar com o arquiteto sobre como transformar uma ideia em uma solução viável. 

O controle da qualidade também fez parte do roteiro. O crescimento de uma empresa do setor em questão, principalmente em trabalhos de alto padrão, deve caminhar ao lado de processos capazes de manter o nível de acabamento. 

Enfim, na marcenaria clássica contemporânea, a complexidade não significa apenas o desenvolvimento de projetos sofisticados. Mas também a administração de pessoas, materiais e prazos, além de uma boa gestão quando os projetos acabam sendo alterados. Ou seja, é fundamental atender a expectativa dos clientes sem deixar de lado a precisão das técnicas artesanais.  

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