No último dia da ForMóbile 2026, o palco do Espaço Maker teve uma discussão enriquecedora sobre a marcenaria na educação infantil com as educadoras Bruna Kim e Pamela Hein.
Elas explicaram como as atividades com madeira e ferramentas reais podem desempenhar um papel importante no desenvolvimento cognitivo, motor e social de crianças a partir dos 3 anos e idade.
Marcenaria no processo educativo
As palestrantes explicaram como funciona a dinâmica de ensinar um ofício tradicional para crianças tão pequenas. Na opinião de Bruna Kim, o verdadeiro valor está no caminho e nas conexões que os alunos fazem durante as aulas.
Ela explicou ainda que, para que o processo seja mais proveitoso, é importante que as crianças tenham objetivo final para guiar o trabalho. “Eles gostam de ver, principalmente os menores, ter uma ideia do que que vai ser feito. Eles precisam de uma meta, um lugar para chegar”, disse.
Ela complementa: “O processo é difícil no começo porque eles se distraem muito fácil. E é legal entender como é essa distração, porque às vezes é uma distração com o próprio processo”, relatou, lembrando de um aluno que, ao ver o sinal mole de uma tábua que estava serrando, parava para mostrar à colega comparando com seu dente de leite que estava caindo.
Pamela Hein reforça a importância de adaptar sua abordagem pedagógica conforme a faixa etária dos alunos. “Com as crianças menores, meu objetivo é claro: proporcionar um ambiente onde elas possam socializar e expressar suas próprias diferenças”, explicou.
Já com os mais velhos, a educadora adota uma metodologia centrada na ética e na autoria, incentivando cada aluno a desenvolver seu próprio projeto. “Tudo é baseado na ética. É a criança que cria, é ela quem desenvolve”, destacou Pamela.
Benefícios da marcenaria, foco e quebra de paradigmas
Questionadas sobre os impactos da marcenaria no comportamento dos alunos, as palestrantes destacaram o desenvolvimento da percepção espacial e a capacidade de concentração. Bruna observou que, mesmo em contatos curtos de uma hora por semana, os reflexos aparecem: “Eles ficam habilidosos. Eles passam a olhar para uma caixa de papelão e querer pôr uma rodinha de madeira. Entendem que pode, que consegue”.
Pamela acrescentou que a atividade manual tem um efeito terapêutico notável, especialmente para alunos agitados. “Geralmente crianças que têm hiperatividade, elas conseguem focar melhor, então é o momento delas respirarem”, pontuou.
O painel trouxe à tona questões de gênero e preconceito no setor da marcenaria. A mediadora Fernanda Sanino, sócio-proprietária da Lumberjills, compartilhou uma história marcante envolvendo Bia, filha de sua sócia, de apenas 10 anos.
Crescendo em uma oficina gerida por mulheres, Bia foi desafiada na escola a escrever sobre alguém que quebrava paradigmas. No entanto, hesitou em escolher a própria mãe, pois para ela era natural que mulheres fossem marceneiras. “Você percebe como, para a criança, o comum é mulher marceneira, não homem marceneiro. Somos nós, adultos, que construímos os paradigmas e preconceitos, não as crianças”, refletiu Fernanda, destacando a importância de desconstruir estereótipos desde cedo.