A indústria moveleira brasileira vive uma transformação que vai muito além da incorporação de novas tecnologias ou do lançamento de coleções mais sofisticadas. As mudanças demográficas, econômicas e comportamentais da população estão alterando a forma como os móveis são concebidos, produzidos e comercializados, impondo novos desafios — e também oportunidades — para toda a cadeia produtiva. 

Essa foi a principal mensagem de Marcelo Prado, diretor do IEMI – Inteligência de Mercado, no palco principal de palestras da ForMóbile 2026. Com base em indicadores econômicos e pesquisas de mercado, o especialista fez uma análise do mercado brasileiro de móveis, focada nas transformações que estão moldando o futuro da indústria e da marcenaria. 

O novo consumidor tornou-se tão importante quanto investir em máquinas, processos produtivos ou inovação, segundo Prado. 

“O consumidor compra o melhor que o dinheiro dele pode pagar. Quem continua oferecendo apenas mais do mesmo entra inevitavelmente na competição por preço”, afirmou. 

Consumidor mudou, e os móveis precisam acompanhar 

Nos últimos 20 anos, a renda das famílias brasileiras cresceu de forma significativa. No entanto, esse aumento não foi acompanhado pelo consumo de móveis na mesma proporção. Enquanto o poder de compra avançou, outras categorias passaram a disputar uma parcela maior do orçamento doméstico. 

Ao mesmo tempo, o perfil da população também mudou profundamente. As famílias estão menores, o número de filhos diminuiu, a população envelheceu e cresce a procura por apartamentos compactos, estúdios, imóveis destinados à locação e segundas residências. 

Isso significa ambientes menores, novas formas de morar e necessidades completamente diferentes daquelas que orientavam o desenvolvimento de produtos há duas décadas. 

Para a indústria, essa mudança exige projetos mais inteligentes, móveis multifuncionais, soluções sob medida e maior integração entre design, funcionalidade e tecnologia. 

Personalização ganha força 

Se o consumidor mudou, a produção também precisa mudar. Para o diretor do IEMI, a expansão dos móveis planejados representa um dos movimentos mais relevantes do mercado atual. 

Esse segmento movimenta aproximadamente R$ 23 bilhões e abre espaço para empresas capazes de entregar projetos personalizados, maior qualidade de acabamento e soluções adaptadas às necessidades de cada cliente. 

Nesse cenário, a marcenaria vive uma transformação importante. Cada vez mais profissionalizadas, muitas empresas deixaram de atuar apenas como oficinas artesanais para assumir características industriais, investindo em equipamentos de maior produtividade, softwares de projeto, automação e integração dos processos produtivos. 

Além da fabricação sob medida, muitas passaram a fortalecer o relacionamento com arquitetos, designers de interiores e especificadores, ampliando sua participação em projetos residenciais e corporativos. 

Tecnologia deixou de ser diferencial para se tornar requisito 

Outro movimento destacado por Prado é a crescente pressão por produtividade. 

O aumento do custo da mão de obra, somado à dificuldade de encontrar profissionais qualificados, acelera os investimentos em automação e digitalização dos processos. 

Máquinas CNC, integração entre software de projeto e produção, otimização de cortes, componentes pré-usinados e ferragens que simplificam a montagem passam a exercer um papel estratégico não apenas na redução de custos, mas também na capacidade de atender projetos cada vez mais personalizados. 

Na avaliação do especialista, grande parte do ganho de produtividade observado na indústria moveleira nos últimos anos está diretamente relacionada às soluções desenvolvidas pelos próprios fornecedores da cadeia. 

Ou seja, fabricantes de máquinas, softwares, painéis, ferragens e insumos deixaram de ser apenas fornecedores de produtos para se tornarem parceiros da eficiência operacional. 

Design e inovação valem mais do que competir por preço 

A necessidade de romper com a lógica da competição baseada exclusivamente em custos também foi discutida. 

Empresas que oferecem produtos semelhantes, utilizando os mesmos materiais, cores, dimensões e acabamentos, acabam disputando mercado apenas pelo menor preço, de acordo com Prado. 

Em contrapartidao, fabricantes que investem em identidade própria, design, inovação, atendimento, experiência de compra e pós-venda conseguem agregar valor ao produto e ampliar suas margens. 

Essa lógica vale tanto para grandes indústrias quanto para pequenas marcenarias. “A diferenciação é o caminho para escapar da guerra de preços”, resumiu. 

Marcenarias tornam-se protagonistas 

Os números apresentados pelo IEMI mostram que a marcenaria deixou definitivamente de ocupar um papel secundário na cadeia moveleira. 

Hoje, o segmento reúne cerca de 29 mil empresas formalizadas, emprega aproximadamente 150 mil profissionais e movimenta quase R$ 20 bilhões anuais apenas na compra de insumos utilizados na fabricação de projetos sob medida. 

Grande parte dessas empresas concentra suas atividades no mercado residencial, especialmente em móveis planejados, mas a tendência é que avancem gradualmente para novos nichos, como hotelaria, empreendimentos multifamily, imóveis para locação de curta temporada e ambientes corporativos. 

Essa evolução também amplia as oportunidades para fornecedores de painéis, revestimentos, ferragens, acessórios, máquinas, softwares e soluções de automação. 

Oportunidade para toda a cadeia 

Mais do que revelar indicadores de mercado, o estudo do IEMI evidencia uma mudança estrutural na indústria moveleira. 

O crescimento futuro do setor dependerá menos da expansão do consumo em massa e cada vez mais da capacidade das empresas de compreender o novo perfil do consumidor, incorporar tecnologia, elevar a produtividade e desenvolver produtos com maior valor agregado. 

Nesse contexto, inovação deixa de ser responsabilidade exclusiva dos fabricantes de móveis. Ela passa a envolver toda a cadeia produtiva — dos desenvolvedores de software aos fabricantes de máquinas, dos produtores de painéis aos fornecedores de ferragens e componentes. 

Quem conseguir transformar essas mudanças em soluções concretas estará mais preparado para competir em um mercado cada vez mais orientado pela personalização, eficiência e experiência do cliente.