Percorrer uma feira com mais 60 mil metros quadrado como a ForMóbile pode ser um desafio até mesmo para os profissionais mais experientes. Em meio a 550 marcas expositoras, identificar as soluções realmente relevantes para cada projeto exige tempo, planejamento e conhecimento técnico.
É justamente para responder a esse desafio que iniciativas de curadoria vêm ganhando espaço. Um exemplo é o tour guiado na ForMóbile promovido pelo Casoca, plataforma voltada à especificação de produtos para arquitetura e design de interiores, que reuniu arquitetos e designers em um roteiro técnico.
Em vez de percorrer centenas de estandes de forma aleatória, os participantes seguiram um roteiro previamente estruturado para conhecer empresas que representam diferentes elos da cadeia produtiva do mobiliário — de ferragens e painéis até softwares, acabamentos e mobiliário corporativo.
A proposta vai além de otimizar o tempo de visita. Ela cria uma jornada de especificação na qual cada fabricante apresenta soluções técnicas, aplicações práticas e tecnologias capazes de impactar diretamente o desenvolvimento dos projetos.
“Os profissionais já chegam ao estande com um olhar mais técnico. As marcas são preparadas previamente para recebê-los e mostrar aquilo que realmente faz sentido para arquitetos e designers de interiores. Fazemos essa curadoria para facilitar e otimizar o tempo dos profissionais”, explicou Mariana Macedo, diretora de marketing do Casoca.
Da plataforma digital para a experiência presencial
A iniciativa também traduz a evolução do próprio Casoca. Criada para conectar fabricantes e especificadores por meio de bibliotecas digitais de produtos, a plataforma tornou-se um ecossistema que reúne mais de 415 marcas, lojistas e profissionais.
Além dos catálogos digitais, a empresa passou a oferecer solicitação de orçamentos diretamente às lojas e prepara o lançamento de ferramentas de inteligência artificial voltadas à renderização de projetos, ampliando sua atuação como plataforma de especificação digital.
Segundo Mariana Macedo, o tour representa justamente a convergência entre o ambiente digital e a experiência física. “É a materialização do digital com uma curadoria”, definiu.
Um retrato da cadeia produtiva do mobiliário
Mais do que apresentar produtos, o roteiro foi estruturado para oferecer uma visão integrada da indústria moveleira.
A seleção contemplou empresas de ferragens, perfis de alumínio, painéis de MDF, fitas de borda, softwares para marcenaria, tintas industriais e fabricantes de mobiliário, demonstrando como diferentes fornecedores atuam de forma complementar dentro de um mesmo projeto.
No segmento de ferragens, os participantes conheceram soluções da Fulterer, especializada em corrediças telescópicas de alta performance para aplicações de grande carga; da FGVTN, com dobradiças, gavetas metálicas e organizadores para marcenaria; da Bigfer/Hettich, referência em acessórios para móveis e representante exclusiva da marca alemã Hettich no Brasil; e da Alternativa Ferragens, que apresentou perfis de alumínio, puxadores e sistemas com iluminação LED integrada.
A etapa dedicada aos acabamentos reuniu fabricantes de fitas de borda como Rehau, que destacou sua tecnologia de Junta Zero, e Proadec, com soluções termoplásticas que eliminam a linha aparente de cola, contribuindo para um acabamento mais uniforme.
Já na área de painéis, a Guararapes apresentou diferentes padrões decorativos, texturas e acabamentos em MDF.
A transformação digital da marcenaria também fez parte do circuito. A Cyncly/Promob mostrou como o software conecta o desenvolvimento do projeto à produção industrial, enquanto a Serrabits/Cortecloud apresentou sua plataforma para terceirização de corte, borda e furação, aproximando pequenas marcenarias de processos industriais.
O roteiro foi complementado pelas soluções de mobiliário corporativo da Blume Office e da OR Design, além da Montana Química, que apresentou tintas e vernizes industriais para acabamento de móveis, com destaque para a Laca Goffrato.
Fabricantes passam a vender conhecimento, não apenas produtos
Outra característica observada, ao longo do tour, foi a mudança na forma como os fabricantes dialogam com arquitetos e especificadores.
Em vez de concentrar suas apresentações em atributos comerciais, as empresas priorizaram informações técnicas, aplicações práticas, desempenho, ergonomia, facilidade de instalação, possibilidades de customização e integração com ferramentas digitais.
Na Blume Office, por exemplo, o foco esteve na ergonomia para ambientes corporativos. A empresa destacou cadeiras desenvolvidas conforme a NR-17, mecanismos autocompensadores, diferentes regulagens para biotipos variados e novos revestimentos que conciliam conforto e estética.
A Fulterer Brasil apresentou corrediças sincronizadas, sistemas para móveis multifuncionais, soluções para grandes cargas e mecanismos desenvolvidos para aplicações especiais, evidenciando como as ferragens assumem papel estratégico na funcionalidade dos móveis.
Na OR Design, a personalização ganhou destaque. A empresa mostrou projetos desenvolvidos para grandes redes corporativas, reforçando sua capacidade de customizar mobiliário em diferentes acabamentos, cores e materiais sem abrir mão da competitividade.
Já a FGVTN apresentou soluções para otimização de espaços, como mesas retráteis, organizadores, porta-temperos, cantos articulados e lixeiras integradas, reforçando a crescente demanda por mobiliário multifuncional e inteligente.
Tendências que marcaram o tour
Ao reunir empresas de diferentes segmentos, a curadoria também permitiu identificar movimentos que vêm redesenhando a cadeia produtiva do mobiliário.
O primeiro deles é a digitalização da especificação, impulsionada por plataformas, bibliotecas 3D, inteligência artificial e softwares integrados ao processo produtivo.
A segunda tendência é a valorização das ferragens inteligentes, cada vez mais decisivas para ampliar ergonomia, funcionalidade e aproveitamento dos espaços.
Também ganharam destaque os acabamentos de maior valor agregado, impulsionados por novas tecnologias em fitas de borda, revestimentos e tintas industriais.
A integração entre projeto e produção ficou evidente no tour, permitindo que arquitetos, marceneiros e fabricantes trabalhem com fluxos cada vez mais conectados.
A experiência reforçou a crescente personalização dos produtos, tanto no mobiliário quanto em componentes e acabamentos, refletindo uma demanda cada vez maior por soluções adaptadas às necessidades específicas de cada projeto.
Especificação ganha protagonismo
O tour guiado do Casoca evidencia uma transformação importante na indústria moveleira. Em um cenário no qual arquitetos, designers e marceneiros influenciam diretamente a escolha de materiais, ferragens, acessórios, revestimentos e mobiliário, a especificação torna-se um dos principais elos entre inovação e mercado.
Nesse contexto, o diferencial competitivo das empresas já não está apenas na qualidade do produto, mas também na capacidade de oferecer conteúdo técnico, ferramentas digitais, atendimento especializado e suporte ao profissional desde a concepção até a execução do projeto.
Ao reunir diferentes segmentos da cadeia produtiva em um único roteiro, a iniciativa demonstra que o futuro das feiras do setor passa cada vez mais pela curadoria qualificada, pela troca de conhecimento e pela construção de conexões estratégicas entre indústria e especificadores.
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