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Arquitetura e design de interiores pós-covid 19

Como será o universo da arquitetura e do design pós-pandemia?

Como a pandemia da COVID-19 irá transformar a sociedade? Quais serão os impactos dessa mudança para arquitetura e o design de interiores? Confira a reflexão de Rogério Gaspar, na coluna de estreia da Palavra do Comitê!

Por: Rogério Gaspar


Desde que o mundo é mundo, passamos por desastres naturais ou tragédias humanas. Provavelmente o mais antigo tenha sido provocado pela colisão de um meteoro na superfície da Terra, que provocou grandes catástrofes como o impedimento da entrada de luz solar, gerou quedas repentinas na temperatura e comprometeu toda a cadeia alimentar. Provocou um verdadeiro colapso ambiental, há aproximadamente 65 milhões de anos, segundo estudos científicos. Por pouco, quase não estaríamos aqui discutindo este tema.

Na história da humanidade passamos por diversas pandemias e grandes depressões, como as duas Grandes Guerras mundiais e a assustadora explosão do reator da central nuclear de Chernobyl, em 1986. Não, não estou sendo dramático, mas apenas listando fatos que de alguma forma, além das consequências conhecidas, abalaram o emocional coletivo, tal como acontece hoje com a pandemia provocada pelo coronavírus. Existe algo cíclico que gera reflexões e mudanças no comportamento.

Compartilhei algumas percepções com meus pares docentes da pós-graduação, para trazer visões mercadológicas. Percebemos um alinhamento de perspectivas, mesmo sendo profissionais de diferentes nichos de mercado, partimos do pressuposto que vivenciaremos um processo de pós-guerra.

A pandemia está nos levando a entrar definitivamente no Século XXI, nos obrigando a usar a tecnologia de inúmeras formas. Está nos conduzindo a uma transformação global que trará um novo mundo, o fim de uma era industrial como conhecemos e um novo formato de enxergarmos o nosso habitat.

Como será o mundo pós-coronavírus? Qual será o novo normal que tanto se fala? Que lições teremos aprendido? Como será o nosso cotidiano, o mercado de consumo, como nossas relações serão afetadas? Não temos bola de cristal e não podemos praticar futurologias irresponsáveis, mas algo está se descortinando frente a nossa retina.

No momento, é fato que o isolamento antecipou novos hábitos e outros ganharam escala em diversas áreas, que levariam anos para se consolidar. Novos comportamentos foram validados por experimentação forçada. A digitalização de vários aspectos da rotina está sendo acelerada pela pandemia. O distanciamento social obrigou o trabalho em home office e home work, trouxe para dentro dos lares o ensino a distância, a ginástica, o entretenimento, o abastecimento online das despensas, reuniões virtuais, restaurantes no aplicativo, tudo intermediado pela tecnologia. Ainda é cedo para sabermos o quanto destes hábitos serão incorporados, mas esta crise abrirá novos caminhos para a sociedade.

A disrupção no modo de trabalhar, provavelmente será o efeito mais sentido no mundo corporativo. O momento serve de termômetro para a quebra de barreiras e diminuição de preconceito do trabalho remoto. A telemedicina já praticada, agora ganhou mais evidência com a forma remota de cuidar da saúde e manter as pessoas em casa.  Novos modelos de serviços passaram a fazer parte da vida da população em todos os setores sociais, como alimentação, o streaming, aplicativos de transporte e encontros por vídeo conferência, entre outros. Em tudo a tecnologia está super presente.

Mas como será o universo da Arquitetura e do Design pós-pandemia?

Devemos nos atentar para geração de novos hábitos e posturas que influenciarão uma eventual mudança de comportamento. É necessário um escaneamento 360° que envolva absolutamente a todos, independente de gerações, classes sociais e culturas, e em todos as dimensões, pois teremos um novo normal.

Nesse momento, o profissional de arquitetura e design terá um papel ainda mais importante, pois é deles a responsabilidade por humanizar os espaços em todos os setores da sociedade. O arquiteto tem a obrigação de entender o momento e entregar para a coletividade um mundo onde as necessidades fundamentais e afetivas dos seres humanos sejam respeitadas e valorizadas.

Segundo o arquiteto e professor Lorí Crízel, coordenador de pós-graduação do IPOG Instituto de Pós- Graduação e Graduação, projetamos espaços residenciais que na verdade são grandes dormitórios, residências-dormitórios onde acordamos, tomamos nosso café da manhã e retornamos somente à noite. Projetamos um apartamento dentro da casa para atender a individualidade dos filhos. O uso social deste espaço construído, por vezes é vivenciado somente nos finais de semana.

Hoje a família percebe novas relações, avalia melhor o seu tempo, dá mais atenção aos ambientes que são evidenciados pela falta ou excesso de elementos necessários ao convívio. Devido à permanência prolongada nesta fase de confinamento, as pessoas atentaram-se a detalhes antes não percebidos, que lhes causam bem estar ou não à apropriação deste espaço. Estão mais sujeitas a modificações, à substituição da decoração, do acabamento, da pintura, do mobiliário, de modo a terem um melhor relacionamento com estes espaços.

Talvez as recepções e salas de espera tenham que ser readequadas quanto ao seu mobiliário, para manter uma relação ao distanciamento, pois adquirimos a percepção desta necessidade e isto também pode refletir nas estações de trabalhos nos escritórios corporativos, que serão mais personalizados, evidenciando a memória afetiva de seus colaboradores, assim como designers de interiores darão ressignificados a ambientes com a valorização cada vez maior da sustentabilidade afetiva e mais aplicabilidade do Design Biofílico.  A garagem da residência talvez seja destinada a outro tipo de ocupação e atividade, pois o automóvel não será mais prioridade.  Shoppings terão espaços ociosos devido a vacância e deverão adaptar estes espaços com aumento de entretenimento, gastronomia, eventos culturais, instalação de drive thru nos estacionamentos para retirada de compras on-line, acelerando uma tendência já detectada neste setor.

Um novo cenário começa a ser desenhado e surge uma nova perspectiva de mercado. Provavelmente passaremos por uma grande reestruturação social. As pessoas começam a reavaliar estas questões em função de suas reais necessidades.

Espaços residenciais serão vistos de um modo diferente. Ambientes corporativos começarão a reavaliar determinadas questões como a não necessidade de presença física de seus colaboradores ou grupo de pessoas e isso terá reflexo diretamente no campo residencial, que desta forma deixará de ser somente um espaço para convívio com a família e deverá ter também um espaço produtivo.

O pós-pandemia, provavelmente terá resultados similares ao pós-guerra, haverá um injetar monetário na economia, pela necessidade de seu reestabelecimento. Teremos estímulos a linhas de financiamento a juros mais baixos e ciclicamente a construção civil, normalmente é a primeira a ser acionada. Podemos exemplificar a construção da Represa Hoover próximo a Las Vegas, no Estados Unidos  em 1931, que além das reais necessidades estratégicas, foi um grande protagonista como gerador de empregos na época da Grande Depressão.

O mercado irá buscar quem estiver mais estruturado diante do que vai acontecer, quem tiver a melhor perspectiva a oferecer, quem entender melhor isso. Novos formatos e posicionamos frente ao mercado serão decisórios de como seremos absorvidos ou não neste momento pós-COVID-19.

As pessoas estão aprendendo coisas novas e mediante a posse de novas informações geradas pela tecnologia, os profissionais serão mais exigidos. Por outro lado, estes mesmos profissionais estão percebendo o quanto este processo pode ser colaborativo entre seus pares de conhecimentos específicos.

A empatia, um movimento de entender o outro, eliminar a agressividade comercial, gerar experiências para o usuário, agora é imperativa. Não terá espaço para o arquitetos ou designers de interiores que coloquem seus egos acima da real necessidade do usuário.

Segundo a reflexão da arquiteta Mirian Runge, professora e especialista em Neurobusiness, “os profissionais serão buscados não pela sua questão de aptidão por algo estilístico ou estético, mas sim pelas condicionantes do quanto o seu conhecimento efetivo é capaz de contribuir para aquele propósito, para aquele objetivo que chega até você.”

Profissionais com domínio de neurociência aplicada à arquitetura, o que chamamos de neuroarquitetura e neurodesign, disciplinas centradas no ser humano, sentir-se-ão confortáveis para atender a uma nova demanda de mercado, que agora tem uma percepção de suas reais necessidades de apropriação do espaço e de relacionamento com o mundo geradas, por gatilhos emocionais.

Esta leitura não se limita somente aos espaços residenciais e corporativos. Este recorte é muito relevante nos espaços comerciais, onde as técnicas neurais possuem respostas mais evidentes e os resultados assertivos são mais exigidos.

Os espaços comerciais devem oferecer uma melhor jornada ao usuário. A excelente experiência cognitiva do cliente é uma necessidade e uma vantagem, à medida que a concorrência se intensificará pela captação deste consumidor, visto que o dinheiro estará mais escasso e no varejo, a oferta será maior que a procura. A mentalidade do consumidor em tempos de crise, passa por um processo de decisão de compra com outra camada de emocionalidade. Não adianta possuir uma boa tecnologia aplicada ao varejo, se a interação se dá entre humanos, e um colaborador insatisfeito ou de mal humor gerado por uma situação pessoal, com certeza irá influenciar o momento de contato de atendimento.

Enfim, com este movimento compulsório o qual fomos obrigados a ficar em casa e descobrir este convívio, a abordagem sobre humanização dos espaços, sairá do campo das discussões para a necessidade da prática, da realização em atendimento a chegada de novas demandas. As pessoas não chegarão mais até o profissional apresentando demandas antigas. Temos que mudar o formato de enxergar isso, o quanto você entende o outro, não mais o básico.

Após o isolamento social, tudo voltará ao normal?

Não temos resposta ainda, mas temos que nos preparar para o futuro. O trabalho colaborativo exigirá contribuições multidisciplinares, inúmeras áreas serão solicitadas, haverá uma nova metodologia de trabalho, um novo modelo. 

O Renascimento marcou a transição da Idade Média para a Idade Moderna, conservando características da primeira e estabeleceu novos paradigmas. Não foi uma ruptura radical com a Idade Média, mas algo gradual.

O ressurgir de uma nova humanidade, de novas demandas, novas perspectivas, novos interesses, novo modo de olhar para o outro está prestes a acontecer.

Você está preparado?


Rogério gaspar.png Rogério Gaspar é arquiteto e professor.  É membro do Comitê de Arquitetos e Designers da ForMóbile.

Veja também: 
ForMóbile #NoSofá - Episódio #5: Desmistificando a Neuroarquitetura (Convidado: Rogério Gaspar) 

 

TAG: Inovação
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